Retratos arruinados
Aos pés de uma ruína fala o abismo,
Estrelas vivem quando o abismo fala.
Prédios de carros mortos no infinito
Cadeiras murchas no medir da sala,
Assim são eles, como o beijo dito
Dedões inchados decorrendo as costas
Abismo por abismo até que o grito
Se torne a dor das flores quando postas
Num jarro morto de outro abismo aberto.
Descendo a escada de outro alguém decerto
O mesmo rosto aos pés de uma ruína
Falava deles sem abrir os olhos
(Talvez piscasse) resolvendo a sina
De estrelas vivas calculando escolhos
“Oh céus” elas diziam sem imagem
Quebrando os pratos de outra imagem fina
À sombra de um “x” chato e sobre a margem
Dos números desnúmeros sem fins.
Tiraram deste cálculo um par de rins,
Não era o órgão necessário quando
Queimaram seu retrato, assim são eles
Com todos os retratos lacrimando
São homens loucos decompondo as peles
Em bocas depenadas se deitando
Ao túmulo e a mortalha resultante
Daquela pedra se autocalculando
Por lápide em cadência deste instante.
Por sobre o meu retrato passa um bando
De pássaros num verbo-pedra e morto.
Aos pés de uma ruína fala o abismo.
João Antônio Marra Signoreli