Ao sensualismo
És mesmo um raro cristal
Luzindo-me a alma breada,
Um prisma através do qual
Te vejo a luz dispersada.
Mil cores rompem fluentes
Da tez mais nívea já vista.
Meu ser de angústias ferventes
Se esfria apenas te avista;
E se embriaga, sem cura,
Jogando-se em outros planos,
Onde a verdade é mais pura
E os bons dias duram anos.
No sereno alvorecer
Deste dia mais fecundo
É possível, sim, rever
Com outros olhos o mundo,
Como o vejo no momento,
Tão pequeno e grandioso…
Somente tu, a meu alento,
Cabes no verso pomposo.
Mas que difuso painel,
Este que vai-me brotando…
Por que à noite cai o céu,
Mistério se tranformando?
Translúcido, teu olhar
Transmite ares de neblina:
Além não posso enxergar,
Mas como a mente imagina!
De mais nada necessito
Do que a vaga sugestão
De nosso amoroso rito,
Vago, entanto em combustão!
Vês que sou um sonhador?
Então me leva ao teu templo,
Dá-me um ópio sanador,
Enquanto eu só te contemplo.
Então, como eu haveria
De o teu âmago sentir,
Deixando a vã poesia,
E assim melhor me exprimir!